O perfil dos consumidores portugueses mudou com a crise. Se os bens de primeira necessidade não admitem cortes, como a alimentação, a energia, os produtos de higiene e os medicamentos, outras categorias, mais supérfluas, já sentiram a «machadada».
Jantar fora, comprar alimentos pré-feitos, abusar do telemóvel e da Internet são alguns dos hábitos que deixaram de ser uma realidade.
De acordo com o estudo «Radar Crisis» da GfK Metris, as categorias de consumo base, como a energia, o papel higiénico, outros produtos para a casa e higiene pessoal, mantiveram-se na franja das categorias mais consumidas, com penetrações a rondar os 100%, sem alterações significativas.
Poupar através da troca de marca
A grande mudança está na troca das grandes marcas pelas marcas mais baratas, em produtos como detergentes de roupa e loiça. 72% admitem poupar nestas categorias através da troca de marca.
Ainda no nível de baixo impacto de redução de consumo encontram-se categorias como os medicamentos, onde 92% dos inquiridos não pretende alterar hábitos a este respeito.
Já as despesas com carácter supérfluo estão em decréscimo. Jantar fora, num restaurante tem sido sistematicamente apontado como um dos campos a cortar nos vários estudos da GfK. Categorias como as sopas pré-feitas mantêm-se, ao longo do ano, como a categoria com maior percentual de inquiridos a dizer que vão abandonar o consumo.
Para além disso, também as categorias mais tecnológicas, como os gastos em chamadas de telemóvel ou com a Internet, sofrem uma diminuição na quantidade consumida, mas mantêm níveis de consumo, na ordem dos 86% para os telemóveis e 53% para a Internet. «Nos últimos anos o mundo sofreu uma revolução tecnológica e os inquiridos não estão dispostos a abdicar da actual relação de proximidade que têm com o mundo», refere o estudo.
Casais jovens com filhos e pessoas perto da reforma mais afectadas pela crise
A GfK diz que, em Novembro, existiam menos 3% de pessimistas do que no anterior estudo, de há um ano.
A crise tem sido mais sentida pelas faixas etárias entre os 35-44 anos e os 55-64 anos, respectivamente, por contemplar muitos casais em início de vida, com filhos pequenos e consequentemente um leque de despesas muito elevadas com saúde e educação, ou por contemplar a fase pré-reforma e o trabalho em muitas das empresas e fábricas que faliram este ano, e a dificuldade em encontrar um novo emprego nesta fase da vida.
Em termos geográficos, a zona do país mais afectada foi o Sul, com a contenção de despesas dos inquiridos a centrar-se sobretudo nas despesas supérfluas, o que incluiu gastos com turismo. A redução de custos com as férias fez com que uma percentagem dos inquiridos, que normalmente viaja para fora do país, tenha passado as férias cá dentro este ano, o que poderia ter induzido um aumento da receita interna, mas, por outro lado, os gastos foram mais reduzidos em termos de refeições, nas próprias actividades efectuadas nas férias e nos gastos com alojamento. Consequentemente, o turismo foi mais modesto, o que teve reflexos negativos no comércio e hotelaria do sul do País.
«Ao longo de 2009, e não sendo claro que a crise já tenha passado, os portugueses adaptaram-se a viver sobre uma nova realidade e intrinsecamente alteraram os hábitos de consumo, já não estando apenas a reduzir por causa da crise, passando algumas mudanças do dia-a-dia a fazerem sentir um clima de recuperação e optimismo», acrescenta a GfK.
A terceira vaga do Radar Crisis foi realizada entre 12 e 23 de Novembro, através de uma entrevista directa e pessoal no lar de 1.287 entrevistados de ambos os sexos, com 18 e mais anos de idade, residentes em Portugal Continental.