A Europa está a fazer tudo para debelar os efeitos da crise?
A Europa não está a fazer tudo o que é necessário para fazer face a uma crise com estas características. Ela é mais do que uma recessão, é uma crise sistémica, que começou no sistema financeiro e se transformou numa crise da economia e está agora a transformar-se numa crise social. Para resolver uma crise desta natureza, é preciso mudar a relação do sistema financeiro, desbloquear o crédito por parte dos bancos, que caiu de forma drástica e, ao mesmo tempo, sustentar a procura, que também caiu. Isto exige um impulso que só pode vir do lado público. É neste ponto que estamos.
E em termos nacionais?
Portugal está completamente inserido neste processo, não só europeu como internacional. Tem pontos fortes e fracos
Quais são os fortes?
O facto de se ter procedido nos últimos anos a um esforço de consolidação das finanças públicas, que criou alguma margem de manobra para se responder agora, e o facto de também se ter consolidado o sistema de protecção social, que vai desempenhar um papel chave nesta situação. E, apesar do sistema bancário ter os seus casos difíceis, assenta em bancos que não estão assim tão internacionalizados, o que os torna menos vulneráveis com esta crise. Também joga a nosso favor o facto do país estar a acelerar a transição para uma economia de mais baixa intensidade de emissões de carbono e nas energias renováveis, bem como nas tecnologias de informação e redes avançadas
E os fracos?
O nível de endividamento externo da economia e um outro de longa data: a fraqueza dos nossos factores produtivos. A nível nacional está a fazer-se quase tanto quanto é possível dados os parâmetros que nos são criados pela Europa. Mas a grande dificuldade agora são as decisões que estão por tomar a nível europeu, o que é particularmente relevante neste momento.
Porquê?
Porque é necessário um relançamento orçamental em toda a Europa, mas nem todos os países estão em condições de o fazer. Se há países com mais folga orçamental, como a Alemanha ou a própria França, há outros que têm total impossibilidade, nomeadamente os a Leste e centro da Europa, ou a Irlanda, ou mesmo o Reino Unido, que está no fim da sua margem de manobra.
O relançamento orçamental significa o quê?
Aumentar a despesa pública, os orçamentos nacionais. Precisaríamos que os Estados membros aumentassem mais do que estão a fazer o seu investimento público. Houve um esforço decidido a partir de Dezembro, mas é pouco. Seria necessário que os governos estivessem em condições de fazer mais investimento público e mais apoio ao privado. Tomaram-se medidas importantes: acelerou-se a implementação dos fundos estruturais, o Banco Europeu de Investimento lançou novas medidas de crédito de apoio às pequenas e médias empresa e foi decidido usar plenamente as margens do Pacto de Estabilidade, o que permite aos países praticar défices públicos mais elevados. São decisões certas, mas não suficientes. Muitos países estão a esgotar essa margem de manobra e vão precisar de mais recursos.
O que é preciso fazer?
É preciso uma coordenação muito mais forte dos Estados-membros da zona euro para aumentar a despesa pública de forma coordenada, nomeadamente em torno de prioridades comuns. Se a despesa aumentar em torno dessas prioridades, todos vão ganhar com a expansão dos restantes - é o chamado efeito multiplicador. Mas essa coordenação não é suficientemente forte. Estamos ao nível de uma adição de planos nacionais de estímulo e não de uma coordenação desses planos.
Que objectivos comuns seriam esses?
A resposta à crise tem de ter como objectivo central evitar o desemprego em massa, porque esse risco existe. Tem que ser feita uma grande aposta no que deve ser uma economia do futuro - já que vamos mobilizar grandes meios de investimento público, então vamos aplicá-los nas grandes alterações de fundo que têm de ser feitas nas nossas economias! É o que estão a fazer os Estados Unidos de Obama. Para a Europa, isso significa novas redes de energia, aposta nas energias renováveis, acesso a banda larga em todas regiões europeias, grande aposta na educação e formação para empregos de futuro e completar a rede de equipamentos sociais na Europa. São quatro grandes prioridades que projectam a economia europeia e podem criar um modelo de desenvolvimento sustentável. Mas a coordenação dos países não é suficientemente forte.
Mas para isso é preciso muito dinheiro...
É verdade, e a margem em muitos países está a esgotar-se. A solução é mais Europa, novos instrumentos europeus - os "eurobonds".
O que são?
Seriam títulos de dívida pública denominados em euros a ser lançados de forma coordenada pelos membros da zona euro para apoiar essas grandes prioridades de investimento público. Os Estados-membros poderiam converter parte dos seus títulos de dívida pública nacional em "eurobonds". Teriam a vantagem de fornecer os meios necessários e de atrair a poupança que está disponível a nível europeu e internacional e que vai ser mobilizada pelos "bonds" americanos ou títulos de dívida chineses. Se a Europa não tiver uma boa alternativa vai perder capacidade de concorrer. O plano americano e o chinês estão a arrancar e a Europa está a perder uma grande oportunidade.
Já há um grande debate em torno dos "eurobonds"?
Há cada vez mais gente a favor. Isto é um instrumento europeu, embora devesse ser garantido pelos orçamentos nacionais. A dificuldade vem sobretudo do lado dos Estados que têm ainda condições muito sólidas para a emissão de dívida pública e que entendem não devem ser solidários com os restantes.
Está a falar da Alemanha?
Sim. Mas pode chegar o momento em que a Alemanha terá que pensar o que prefere: não colaborar numa iniciativa deste tipo e estar rodeada por zonas em depressão, ou colaborar, com as devidas garantias, justamente para beneficiar de uma retoma europeia mais generalizada. Na área do estímulo orçamental, nós precisamos de mais Europa: para fazer face à crise, temos de reforçar a União Europeia, porque senão o risco é haver grandes tensões na zona euro, países com dificuldade em responder pela sua dívida pública. Já estamos a ter. A crise está a minar a integração europeia, a única resposta é reforçá-la.
Mas a nível nacional os países estão a ser muito pressionados para reagir...
Devido ao risco do desemprego, os governos estão a ser muito conduzidos a fornecer apoios às suas empresas nacionais. Mas se as ajudas de Estado não forem suficientemente coordenadas, corremos o risco de termos concorrência desleal entre os Estados, porque a verdade é que não estão todos nas mesmas condições de ajudar as suas empresas. Isso cria grandes tensões já hoje no mercado interno europeu. Dois "acquis" centrais - a união económico-monetária e o mercado interno europeu - estão em tensão por causa da crise.
Qual é a solução?
Reforçar a construção europeia, desenvolvendo uma política industrial europeia, que não deve ser proteccionista, mas que deve coordenar os esforços dos Estados-membros no sentido de desenvolver sectores competitivos à escala mundial.
E os Estados estão preparados para tanto?
Há alguma coisa nova - as reuniões regulares em Bruxelas de representantes nacionais de certas indústrias-chave, nomeadamente automóvel, são um primeiro embrião de coordenação. Mas o que defendo é que é preciso ir mais longe e apoiar essas indústrias nacionais com instrumentos europeus, que também já existem em embrião. Já existem plataformas tecnológicas para apoiar a investigação em cada sector, financiadas pelo orçamento comunitário.
O que são essas plataformas?
São plataformas, cerca de 40 actualmente, onde empresas, Estados-membros e instituições de referência de uma certa área, por exemplo, em tecnologias ambientais, de informação ou de saúde, se encontram e obtêm apoio do orçamento comunitário para projectos comuns de reforço da competitividade. Identificam projectos de investigação e desenvolvimento para melhorar uma determinada tecnologia e depois difundem-nos às empresas que fazem parte dessa plataforma. Devia haver uma única plataforma para cada sector, em que os seus principais actores pensassem de forma coordenada como é que melhoram a investigação, inovação e recursos humanos nesse sector.
Tendo como objectivo final uma produção europeia?
Sim, porque o que verificamos por experiência é que hoje existem cadeias de produção que não são só nacionais, mais europeias e às vezes globais.
Podia ser uma solução para o sector automóvel europeu, que muitos dizem estar condenado?
Exactamente. A indústria automóvel europeia está sob grande ameaça do lado asiático, mas há uma hipótese de sobrevivência: apostar rapidamente num carro com baixas emissões de carbono, alta segurança e inteligente e e produzi-lo para a massa de pessoas. A Europa tem uma vantagem tecnológica clara para esse tipo de carro.
Não há dificuldades devido ao facto de as marcas serem nacionais?
É até interessante haver concorrência entre grandes multinacionais europeias no sentido de se estimularem na concorrência e irem mais rápidas na reconversão.
E onde pode Portugal beneficiar?
Se tivermos uma política europeia de apoio mais forte à indústria e inovação, o que temos a fazer é entrar nesses programas europeus para nos posicionarmos o melhor possível nas cadeias de produção europeias. Não é fecharmo-nos a proteger as indústrias que temos. É fazer pressão para haver instrumentos europeus e participarmos neles.
Em que áreas a Europa pode criar empregos?
Imensos, em tudo que tem a ver com tecnologias verdes e novas tecnologias energéticas, na área do transporte, habitação e na própria produção de energia; em tudo o que se relaciona com as tecnologias de informação, serviços às pequenas e médias empresas e às pessoas (pessoais e culturais) e um outro, muito promissor, que são as indústrias criativas que fornecem o design a todas as outras indústrias e novos conceitos de serviço. Os portugueses têm uma capacidade muito especial nos meios internacionais de se relacionarem com outras culturas e isso é uma competência central nas indústrias criativas, saber tirar partido da diversidade e comunicar na diversidade. Também se podem criar empregos na renovação das nossas cidades, na reabilitação mais do que na construção e na renovação da nossa indústria. Sobretudo que não se venha dizer que a indústria não tem futuro na Europa!
Se os países enveredarem pela sua dimensão nacional, é o fim da UE?
Não será o fim, mas introduzirá uma enorme tensão em pilares básicos da UE, como já está a acontecer no mercado interno e na união monetária. Estamos a ver ressurgir o proteccionismo e o nacionalismo. Ao contrário, a crise também requer uma politica social mais forte.
Mas com uma orientação diferente daquela que estava a praticar...
Agora, há que ser claríssimo. A primeira prioridade é salvaguardar os empregos e evitar o desemprego em massa, porque isso significa grande desperdício de recursos humanos, grande sofrimento e é depois muito difícil reempregar essas pessoas. As empresas devem ser apoiadas para evitar despedimentos através de medidas de fundo, reduzindo temporariamente as suas contribuições para a protecção social e fazendo formação dos trabalhadores nos períodos em que não podem produzir. A segunda prioridade é criar empregos alternativos, porque vão ser necessários e em áreas de futuro. A terceira é formar as pessoas para isso. A quarta é reforçar os dispositivos de protecção social no desemprego e na velhice.
Há dinheiro para isso tudo?
O fundo social, neste caso, devia ser redireccionado para funcionar como um grande fundo europeu para a globalização. Já temos esse fundo, mas é muito pequeno. Em qualquer situação, é preciso mais Europa. Os governos estão perante este dilema - ou colaboram numa coordenação mais forte a nível europeu, ou vão digladiar-se numa concorrência que pode ser perigosa e nociva em relação ao estádio da construção europeia.
As eleições europeias podem servir para estabelecer um rumo?
Claro! Devem servir para clarificar a direcção política a imprimir à Europa. Estamos numa grande encruzilhada. À partida, a Europa até podia estar muito melhor defendida da crise do que os EUA, porque tinha uma situação macroeconómica mais sólida e tem um modelo social que a protege mais da crise e uma estrutura produtiva mais diversificada. Mas tem dois grandes pontos fracos: estar envolvida num processo complexo de construção europeia, que implica a partilha da soberania nacional e o facto de ter uma liderança não clarificada devido ao impasse que se tem vivido face ao Tratado de Lisboa.
A liderança clarificava-se com a criação de um presidente europeu?
O Tratado pode ajudar a reforçar a liderança europeia, mas vai depender da escolha das pessoas. Quando vemos a recente cimeira EUA-UE em que a União estava representada por um primeiro-ministro demissionário, diz-se tudo da fragilidade politica em que ela se encontra. Um problema assim poderia ser resolvido pelo Tratado, na medida em que prevê um Presidente permanente.
Mas isso é apenas representação...
Depois há a coordenação de políticas que está por fazer. À partida, o Tratado tem mecanismos que ajudam nesse sentido: prevê novos mecanismos de coordenação de políticas económicas e sociais, um verdadeiro Conselho de Assuntos Gerais (uma inovação muito importante na medida em que se poderá concentrar na coordenação das políticas internas da União e no seu interface com as nacionais) um Alto-representante que terá capacidade de coordenar as políticas externas da União.
Estamos a seis semanas das eleições europeias, que continuam a ser uma adição de eleições nacionais. Como se cria uma dinâmica europeia?
A taxa de abstenção muito elevada é preocupante porque mostra que a maioria dos cidadãos não está em condições de perceber em que é que a Europa os pode ajudar a resolver os seus problemas do dia-a-dia. Por exemplo, é fundamental explicar que se as pessoas querem que a sua empresa sobreviva, numa situação de crise, vão ter em primeiro lugar que garantir que o crédito é desbloqueado para as empresas e que para o desbloquear tem de haver abordagem europeia. Quando os governos pressionam os bancos para conceder os créditos, eles têm de enquadrar os bancos com as mesmas regras, senão é concorrência desleal. Quando a crise rebentou e a Irlanda imediatamente garantiu os depósitos dos seus bancos, provocou uma enorme tensão sobre todos os outros bancos na Europa. Muitos cidadãos europeus, nomeadamente britânicos, queriam colocar as suas poupanças nos bancos irlandeses, levando à falência bancos britânicos.
Mas como fica garantido que o cidadão ou empresa tem efectivo acesso ao crédito?
Mais uma vez é preciso uma abordagem europeia para garantir que o Banco Central Europeu reduza as taxas de juro - e se calhar ainda vai ter de reduzir mais. Depois, essas garantias dadas aos bancos para eles emprestarem, têm de ser coordenadas ao nível europeu, porque senão o reforço que um país faça aos seus bancos, está a minar os bancos de outro país. Mas tem de se ser muito claro com os bancos: se querem contar com o apoio público, têm que desbloquear efectivamente o crédito a custos mais baixos. É bom que esse recado passe - e ele não está a passar com a força suficiente em toda a Europa. É um problema gravíssimo porque os bancos estão no âmago da crise: os bancos não emprestam porque não acreditam na actividade económica e a actividade económica não retoma porque não tem crédito. Tem de se quebrar este círculo vicioso.
Poderia haver suspnsão de pagamentos por parte das empresas?
Pelos menos em relação às contribuições para a segurança social sim, embora num certo momento isto possa requerer medidas do foro dos impostos - e já está a ser equacionado em alguns países.
Baixar os impostos?
Pode haver decisões. Na minha perspectiva, pode ser preciso financiar este esforço orçamental adicional com impostos mas aí tem de haver grande critério de justiça social, porque estamos em crise, ainda para mais.
Ou seja, os cidadãos têm de perceber que há opções a fazer nestas eleições...
Os cidadãos europeus deviam ser confrontados com escolhas simples e claras como: para sair desta crise é necessário realizar mais investimento público e apoiar o investimento privado. Está de acordo com coordenação mais entre os governos em torno disto ou não? Está de acordo com lançamento de instrumentos europeus como "eurobonds" ou não? Segunda: é preciso que este investimento adicional transforme as nossas economias paras outras menos poluentes. Está de acordo em apoiar esta reconversão das nossas economias para novas formas de consumir, produzir e viver? Quer entrar nisto ou não? Deixar isso para os filhos ou não? Terceiro: a Europa está a perder influência nas grandes decisões internacionais - como responder à crise, nas questões comerciais - está de acordo em reforçar a coordenação europeia na cena internacional ou não?
As pessoas dizem logo que sim.
Mas há que explicar. Isto pode ter de ir ao ponto de acordar uma representação da EU formal em instâncias como G20 (já lá está) os boards do FMI e do BM, no Conselho de Segurança da ONU.
Se isso significa os outros países abdicarem, isso não vai acontecer
Pensa-se criar uma representação formal da UE que exista a par das representações nacionais, uma solução de transição. As pessoas têm de perceber que ou se quer isto ou será a irrelevância internacional crescente da União Europeia - está é a escolha. Não se pense que se vai continuar como está.
A União Europeia é reversível?
O nível de integração que atingimos é muito profundo, não é fácil reverter este processo. Mas pode haver um cenário de decadência interna e externa e esse risco existe, potenciado pela demografia em perda de vitalidade, o fechamento à imigração, a incapacidade de se coordenar de forma mais profunda, de se representar a nível externo de forma mais evidente - tudo conduz a cenário de decadência
Falta uma liderança europeia?
Não tenho ilusões. A Europa não é uma Federação, é uma união de Estados-nações e nestas condições históricas não podemos ter um personagem que seja um actor único que seja a personificação de uma agenda de uma forma tão clara como acontece nos EUA. Isto quer dizer que os nossos líderes nacionais também têm de se assumir como líderes europeus.