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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Merkel quer moldar Europa à imagem da Alemanha. Porquê?

A chanceler alemã Ângela Merkel quer moldar a Zona Euro à imagem da Alemanha, aproveitando a crise de dívida pública, que deixou a região mais fragilizada, escreve a Bloomberg.

A ideia é tornar as outras economias do euro, nomeadamente as que agora enfrentam maiores dificuldades (Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, etc.) mais saudáveis e, consequentemente, mais resistentes. 

A intenção de Merkel, há muito conhecida, passa por impor condições, como limites ao défice e à dívida dos países, que quer ver inscritos na Constituição de cada um deles. E, para os que desrespeitarem os limites necessários à manutenção da boa saúde financeira, Merkel quer castigos pesados.

No plano económico, também há regras que Merkel quer ver implementadas na Europa como um todo: aumento da idade da reforma, para tornar os respectivos sistemas públicos de Segurança Social mais sustentáveis, e maior flexibilidade nas leis laborais, para que o mercado de trabalho seja ágil e as empresas mais competitivas.

Uma mão lava a outra

Estas são apenas algumas das condições que Merkel impõe para ajudar os parceiros. Aproveitando que o resto da Zona Euro precisa da Alemanha agora mais do que nunca ¿ a Alemanha é o maior contribuinte para o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) ¿ a chanceler alemã vai usar a força da maior economia da Europa para obrigar os outros países a cederem à sua visão.

Merkel e Sarkozy querem pacto europeu para a competitividade

Se querem que Merkel aceite reforçar o fundo europeu de resgate e flexibilizar a utilização desse dinheiro, os outros países terão que ceder ao que a chanceler quer. 

Alargar e flexibilizar o fundo pode ser uma forma de acalmar definitivamente os mercados em relação à dívida pública dos países do euro, ao permitir aos mais frágeis aceder a ajuda dos parceiros a taxas de juro mais baixas. 

A visão que Merkel tem para a Europa é boa: tornar todos os países do euro saudáveis a nível orçamental, e economicamente fulgurantes. A receita que funcionou com a própria Alemanha na recuperação do pós-guerra. 

A Alemanha passou por um difícil processo de reestruturação, mas os frutos estão à vista: impulsionado pelas exportações, o país teve o período de maior crescimento económico das últimas duas décadas no ano passado, com o Produto Interno Bruto (PIB) a crescer 3,6%. O desemprego caiu para o valor mais baixo dos últimos 18 anos, nos 7,4% em Janeiro, o segundo mais baixo do G7, e a confiança empresarial atingiu um nível recorde.

O que a Alemanha espera agora é que os outros países façam o mesmo que ela fez.

O feitiço contra o feiticeiro?

O que Merkel não pode permitir é que tudo fique como está. Apesar de o Pacto de Estabilidade e Crescimento impor limites de défice orçamental para os membros do euro, a verdade é que não foi aplicada qualquer sanção a nenhum dos vários países que violaram essas regras. Nem mesmo à Grécia, que falseou as suas contas e que nunca até hoje, respeitou os limites.

Merkel não tem interesse em ver o euro fraquejar, pelo contrário. Mas tem de manter um delicado equilíbrio, porque o seu feitiço pode virar-se contra o feiticeiro. A chanceler arrisca-se a fazer subir o custo das obrigações alemãs e pode ainda perder o apoio dos seus próprios eleitores, que não gostam de ver o dinheiro dos seus impostos usados para apoiar outros que não souberam governar-se bem sozinhos.

A chanceler alemã está condicionada pelas eleições que a Alemanha enfrenta este ano: Merkel não pode desagradar aos alemães entregando o dinheiro dos seus impostos aos incumpridores parceiros europeus. Numa sondagem de Janeiro, 64% dos alemães manifestaram-se contra o apoio financeiro a outros países do euro, mais endividados. Cerca de metade já só querem ver o euro pelas costas e voltar ao marco.

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