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sábado, 25 de julho de 2009

Sete pecadores aqui se confessam...

Um inferno de prazer, com as tentações à mão de semear. Sou gulosa, quero mais um chocolate! Que calor, tanta luxúria, vamos a mais uma sessão de lascívia! Sou vaidosa, porque não?! Quero que a Branca de Neve morra já! Não tenho vergonha de ser avarenta e não te empresto nem um tostão! Que raiva, desapareçam todos da minha frente! Depois de tudo isso, fiquei com tanta preguiça que vou dormir mais uma sesta!...
Podia ser assim a cartilha de um pecador a pleno, dando vazão aos sete pecados capitais. Fomos à procura de algumas personalidades nacionais para tentar perceber até que ponto o peso do pecado nos limita, pendurados entre a condenação e a celebração do prazer. Ficámo-nos pelos pecados tradicionais, mais pessoais, e ignorámos os acrescentos feitos no ano passado pelo Vaticano, que actualizou a lista e acrescentou a pedofilia, o aborto, a manipulação genética, o tráfico de droga, a riqueza desmesurada e a poluição ambiental. Desafiámos sete pessoas a partilhar a sua relação com um destes pecados. Não puderam escolher os pecados, fomos nós que os atribuímos, com base nos seus percursos. É que, de uma forma ou de outra, todos somos pecadores...

Ira
Paulo Bento, treinador de futebol





A imagem de Paulo Bento furioso no fim dos jogos contra o desempenho dos árbitros é já um clássico para os adeptos do desporto rei. Será ele um raivoso pecador da ira? Fomos perguntar-lhe. "Dizem os cientistas ligados a estas matérias que a ira é um intenso mas breve sentimento de raiva. E que a ira pode levar à prática de actos irracionais, dos quais muitas vezes poderemos vir a arrepender-nos. Talvez à luz disto muitas pessoas considerem absolutamente normal que me tenham escolhido para símbolo da ira...", reconhece com fair play. "Já estou a imaginar alguns a pensar que o meu nome se encaixa que nem uma luva nesta eleição e neste pecado. 'Bem escolhido' ou 'claro, só podia ser este' é o que poderão pensar", brinca. Reconhece, ainda assim, que tem alguma culpa no cartório. Mas parece estar a anunciar uma nova fase. Será que vem aí um novo Paulo Bento? "É óbvio que tenho consciência da imagem que construí e passei enquanto atleta e depois como treinador. E claro que admito que chegue à opinião pública a imagem de um profissional duro, exigente, porventura incapaz de andar sempre com um sorriso na cara. Mas isso faz parte da complexidade inerente ao papel que desempenho e às funções que me cabem." Se os acessos de ira são pois, para ele, ossos do ofício, uma coisa Paulo Bento garante - não é sempre um homem de cara fechada: "Os que me conhecem melhor sabem que não sou, por natureza, um tipo irado nem maldisposto. Pelo contrário. Admiro o humor, adoro rir e acho que não há melhor forma de levar a vida que não seja numa onda de responsável boa disposição e espírito de convivência. Desenganem-se: pensar positivo é essencial à minha vida." É a bonança depois da tempestade...

Preguiça
José luís Peixoto, escritor





Os portugueses não gostam de assumir publicamente os seus defeitos. Públicas, só as virtudes. Assim, não foi fácil encontrar alguém para se enrolar numa conversa sobre a preguiça. Até que... o estereótipo do alentejano serviu de argumento. José Luís Peixoto é alentejano e, melhor, escritor, com criatividade suficiente para partilhar o que diz ser uma espécie de página do seu diário. Garante que ficou contente quando o convidaram para escrever sobre a preguiça: "Por fim, um tema sobre o qual sei bastante. Tenho passado quase um terço da minha vida a dormir." Depois começou a reproduzir as suas angústias: "Creio que não vou demorar muito tempo a escolher palavras para esse texto futuro.

Quando se domina tão bem o assunto é mais fácil. Vou começar já a escrevê-lo. Antes, vou só ver o que está a dar na televisão. Pode estar a dar alguma coisa que precise mesmo de ver. Antes ainda, muito rapidamente, vou só à Internet. É bem possível que tenha novos amigos no Facebook, no MySpace e, já agora, no Hi5 (também no Orkut). Mas antes, não demoro nada, nada, vou só passar pelo meu e-mail. Posso ter recebido algum e-mail que precise mesmo de ver. Mas, antes de tudo, vou só afixar um pequeno texto no meu blogue. Escrevi-o ontem num papel que, acho, guardei na gaveta da secretária. Tenho de arrumar essa gaveta. Vou arrumá-la já. Creio que não vou demorar muito tempo a arrumá-la. Vou começar por separar os envelopes, vou ordená-los por tamanhos e datas de chegada."

E a espiral do escritor dá arrepios a quem o tenta seguir: "Antes, vou só comer qualquer coisa. Vou fazer uma omeleta. Falta-me pimenta. A omeleta que imaginei tem de levar pimenta. Vou ao supermercado. Não, é demasiado longe, teria de me vestir. Não, não vou. Vou ver o que está a dar na televisão. Pode estar a dar alguma coisa que precise mesmo de ver. E, sim, vou escrever o texto sobre a preguiça. Não me esqueci. Tenho muito para dizer sobre a preguiça. Mas, antes, muito rapidamente, vou só à Internet. É bem possível que tenha novos amigos no Facebook e etc." O texto possível escrito por um preguiçoso...

Gula
Margarida Martins, presidente do programa 'ABC Ser Criança'





O pecado da gula representa o desejo insaciável de ter sempre mais do que se tem e precisa. Tradicionalmente, pensa-se na gula associada apenas à alimentação, mas na verdade a gula do ser humano é de muito mais do que de comida - é uma forma de ele não se contentar com o que tem. Mais rapidamente a gula nos devora por dentro do que nós podemos devorar o que nos deveria saciar.

Gulosa assumida, sobretudo por gelados e chocolates, Margarida Martins admite que tem "uma atracção fatal por doces". Está-lhe na cara, na alegria do riso solto, no entusiasmo. Quando era miúda, punha azeite e açúcar no pão. E cresceu assim, juntando os prazeres, alimentares ou não. Adora cozinhar, mas não para ela. É ao dar prazer aos outros que diz ter prazer.

Rejeita quem come a mais só para não partilhar a comida. Mas, se ela própria tiver de ficar sem comer, aguenta. Diz que é capaz de viver algum tempo a pão e azeitonas. E gosta. O que interessa é ter prazer. Reconhece que os doces respondem a outros anseios, que não só à sobrevivência: "Há dias em que preciso de um doce."

Diz que a sociedade contemporânea "anda mal amada e solitária" e por isso come o que come e como come. É um comportamento resultante de uma série de carências. E conclui: "O verdadeiro pecado não é a gula, é a solidão." Para Margarida Martins, "gula é prazer".

Vaidade
Fátima Lopes, estilista





Ainda era mais pequenina do que é hoje e já andava a bater com os saltos dos sapatos da mãe pelo chão de casa, na Madeira. Devia ter uns 4 anos. Fátima Lopes lembra-se de ser vaidosa desde sempre, até porque, para a estilista, a vaidade está muito longe de ser um pecado. "A vaidade é saudável, reflecte a auto-estima de uma pessoa, e não há nada mais importante do que gostarmos de nós próprios", defende.

Mas, atenção: "Tudo na vida tem de ser q.b." Nunca foi maria-rapaz, sempre quis escolher as próprias roupas, ao ponto de ter percebido bem cedo que não havia disponível nada que a satisfizesse. Com 14 anos, começou por fazer uma saia, e bastaram 35 centímetros de tecido para exercitar a sua vaidade de vestir como queria. Explica a sua relação descomplexada com o próprio corpo por ter nascido na Madeira, onde as pessoas andavam mais expostas. Chegou ao continente com 23 anos e descobriu um novo caminho para a sua vaidade: o brio profissional.

Talvez por isso esteja mais relaxada na sua vaidade física e mais concentrada em fazer um bom trabalho. Sobretudo quando há 11 anos começou a mostrar as suas colecções em Paris. "Nunca mais parei. Sei que estou sempre à prova. Não há lugar para falhas. Não posso descurar nem por um segundo a minha vaidade profissional", afirma, convicta.

E a vaidade de Fátima Lopes procura ser contagiosa. A estilista diz que gosta de trabalhar em equipa e procura passar a mensagem da meritocracia e do perfeccionismo aos seus colaboradores. De tal forma que desejaria que a ambição de fazer sempre mais e melhor passasse para todos os portugueses, empenhados na defesa da imagem do país.

"A imagem de Portugal mudou para melhor, e fomos todos nós que a mudámos, sobretudo a geração mais jovem. As pessoas estão mais ousadas", afirma. Mas na sua carreira já viu o excesso de vaidade ter maus resultados: "Não se pode confundir vaidade com arrogância, porque a vaidade exagerada é ridícula. Digo sempre que estrelinhas só no céu."

Luxúria
Rui Unas, apresentador





O "Cabaret da Coxa" era uma casa com muito que se lhe diga. Por isso, não foi difícil encontrar o caminho para a porta de Rui Unas. O apresentador era irreverente o suficiente para falar dos arrepios da luxúria. Aceitou o desafio e deixou-se ir. Falou dos pecados como quem fala das pessoas: "A Luxúria é caprichosa e mal comportada. Gosta de provocar a sua prima Ira quando não satisfeita. Quando não partilhada, a Inveja corre para lhe fazer companhia, mas ela fica à distância, oculta e cobarde.

A Luxúria adora passear de mãos dadas com a Vaidade, sua prima direita predilecta. Não se largam! E quando brincam juntas não é raro a Gula ser convidada para a festa, pois nunca ficam satisfeitas. Até a Preguiça não se faz rogada quando a Luxúria lhe salta para o colo e lhe faz cócegas, interrompendo-lhe o sono." E continua: "A Avareza, sua prima afastada, é muito esquisita, passa o tempo sozinha e não lhe dá troco... e vice-versa. Desconfio que mantém uma relação proibida há muito com a Moral da família Bons Costumes. Ui, se isso se soubesse, era um escândalo! Vêem-se às escondidas em encontros furtivos, combinam esquemas para a farsa continuar...

O ódio público que destilam mutuamente, na verdade, é paixão. Uma não vive sem a outra. Uma não existe sem a outra. Eu, pessoalmente, acho a Moral uma maluca reprimida, mas isso é outra conversa." Depois da brincadeira, vem o desabafo. Será sincero? "Na verdade, sempre tive um fraquinho pela Luxúria. Apesar da 'má companhia' das primas, sempre foi a mais popular na escola. Mas só com a idade a compreendi verdadeiramente. É a única que me satisfaz todos os sentidos. Que mais me inspira. Que mais me faz transpirar. Dizem que o casamento não resiste a ela. Pois eu digo que só persiste com ela. Curioso, há uns séculos queimavam-se corpos em fogueiras por causa dela, hoje inauguram-se canais de TV e revistas onde ela é protagonista e se faz pagar bem para ser vista.

Hoje é, talvez, a menos condenada pela sociedade, mas de todas 'as primas' é a mais requintada e elitista. A Luxúria é casada com o Luxo. Mas vai com qualquer um, desde que a possa sustentar. Gosta de duos, mas delira com trios. Uma desavergonhada, é o que ela é!"

Avareza
Filipa Vacondeus, cozinheira





"Portugal sempre viveu com dificuldades, talvez daí a avareza de alguns", afirma, complacente com a sociedade nacional, Filipa Vacondeus. Uma senhora que pode ter muitos pecados mas conseguiu convencer-nos que a avareza não faz parte do seu arsenal. É que prefere trocar a egoísta avareza pela solidária poupança. Num mês, esgotou quatro edições do seu novo livro "Receitas Low-Cost", uma forma de ensinar a poupar, sem necessariamente ser avarento.

Alerta os mais distraídos de que "Portugal não é só Lisboa, e a horta tradicional não tem rúcula ou cogumelos", por isso defende o retorno aos ingredientes tradicionais da cozinha portuguesa, mais baratos e acessíveis. Pensa como uma dona de casa que tem de gerir o próprio orçamento. "Ser poupado é absolutamente indispensável. Avareza é outra coisa, é querer as coisas só para si", ensina, do alto dos seus 76 anos. Aprendeu a ser desprendida desde que, quando tinha 12 anos, os familiares se juntaram para lhe oferecer 12 contos de réis, mas o pai, industrial, estava com problemas em pagar os salários dos trabalhadores. Pediu-lhe então emprestado o dinheiro dos anos, e ela deu-lho.

"E se eu fosse filha de um avarento?" Se calhar não tinha virado a cozinheira que ocupa um cantinho no coração de muitos portugueses. E conclui: "Uma avarenta não pode ser cozinheira, porque a comida é feita para ser partilhada. O problema é que a sociedade actual perdeu a noção da poupança."

Inveja
Filipe La Féria, encenador





Não terá sido à toa que Luís de Camões a escolheu para ser a última palavra de "Os Lusíadas". Há quem diga que este é o maior pecado português e que nos resume como nação. Filipe La Féria concorda. Diz que se acostumou a ser alvo de muitas invejas. É o invejado-mor do teatro nacional e responde aos cobiçosos com "a obstinação do trabalho".

Conquistou o público, esgota lotações e acumula nove prémios de teatro e cinco globos de ouro. "Não tenho tempo para me preocupar com os invejosos. A arte está acima disso", garante, a rir-se. "Não gosto da palavra 'pecado', que remete para uma concepção da vida judaico-cristã.

Viver com tantos impostos no nosso país já é um acto de contrição que nos perdoa todos os pecados." Mais do que querer ter o que o outro tem, a inveja é a arte de desejar que o outro não tenha o que nós queremos ter. E ele sente inveja? "Não sou invejoso e estou-me a marimbar que tenham inveja de mim. No teatro, penso que as novas gerações evoluíram muito. Nos meus espectáculos, os papéis principais são interpretados geralmente por dois actores, e eu senti sempre interajuda e nem o mais leve sentimento de inveja.

Quando vejo espectáculos em Nova Iorque ou em Londres, também não sinto inveja, pois por diversas vezes - como nos casos de 'My Fair Lady', 'West Side Story', 'Música no Coração' e 'A Gaiola das Loucas' - os actores ou os seus representantes disseram que as nossas produções eram melhores. Além de que, em Londres, já tenho o prazer e o orgulho de ver actores e actrizes portugueses que começaram as suas carreiras no Politeama a terem papéis principais nos mais importantes espectáculos do West End..."

O seu conselho? "Tchékhov, o grande dramaturgo russo, escreveu que 'com inveja fica-se estrábico', portanto, recomendo aos invejosos que consultem um bom oftalmologista."

Texto publicado na edição do Expresso de 25 de Julho de 2009

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