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quinta-feira, 2 de julho de 2009

BCE vai manter a taxa de juro em 1% até meados de 2010

O economista do Montepio, José Miguel Moreira, acredita que o Banco Central Europeu (BCE) não vai alterar a taxa de juro na reunião de hoje e que, apesar do “pedido” da OCDE e dos indicadores económicos apontarem para que a autoridade monetária devesse descer os juros para 0,5%, o BCE não o deverá fazer.

Antevê alguma alteração das taxas de juro? E novas medidas não convencionais?
Não. Na reunião de hoje, o BCE deverá optar por manter inalterada a sua taxa de juro de referência em 1%, à semelhança do efectuado na reunião de Junho, não sendo, também, esperada qualquer alteração ao nível das medidas de carácter não convencional.

O BCE não deverá, assim, proceder a qualquer alteração ao programa de aquisição de 60 mil milhões de euros de obrigações hipotecárias ("covered bonds"), nem à operação de cedência de liquidez.

De resto, na conferência de imprensa que se seguirá ao anúncio da decisão, o BCE deverá aproveitar para dar algum destaque ao “sucesso” da referida operação de cedência de liquidez efectuada pelo BCE, cuja primeira operação foi realizada na passada quarta-feira (dia 24 de Junho), que é espelhado pelos números: 442 mil milhões de euros de crédito concedido a um total de 1 121 bancos.

Qual é a perspectiva em relação à evolução dos juros nos próximos meses?
A OCDE recomendou que o BCE corte rapidamente a Refi Rate para níveis mais próximos de zero. Trata-se, de facto, de algo que temos vindo a defender desde, pelo menos, o passado mês de Fevereiro e cujas últimas projecções da OCDE para o PIB e a Inflação da Zona Euro vêm, uma vez mais, sinalizar. É essa, de resto, a indicação dada pelos modelos macroeconómicos desenvolvidos pelo Departamento de Estudos do Montepio, os quais apontam para a necessidade de esta taxa se situar em 0,50%, nível que, embora passe a ser considerado excessivo por parte destes modelos logo no mês seguinte (e até Maio de 2010), consideramos que bem poderia ser o nível mínimo a adoptar na região.

No entanto, tudo leva a crer que o actual nível da Refi Rate (1,00%) corresponda ao mínimo do actual ciclo, embora o Presidente da autoridade monetária, Jean-Claude-Trichet, não tenha afastado a possibilidade de cortes adicionais.

Entre outras razões para não ocorrerem mais cortes de taxas estão: o facto de, conforme ficou uma vez mais evidente, na semana passada, estes não serem do agrado da ala mais conservadora (e influente) do BCE; e o facto de começarem a ser cada vez mais notórios os sinais de melhoria económica da região (embora, para já, essencialmente ao nível dos indicadores de sentimento), o que nos leva a achar que se, na sua ausência, o BCE já havia mostrado fortes reticências em baixar os juros, actualmente, terá mais uma “razão” para não o fazer.

Prevê-se, adicionalmente, e estando estas previsões naturalmente condicionais à manutenção das actuais perspectivas de evolução económica na região, que o BCE comece a ponderar dar início a um processo de subida de taxas para meados do próximo ano.

Em relação às taxas Euribor, o que podemos esperar? Mais quedas, ou estabilização?
Nos últimos meses, as taxas Euribor tinham vindo a ser afectadas (em baixa), essencialmente, pelos cortes de taxas por parte do BCE, bem como pela expectativa de continuação desses cortes e pela gradual estabilização do sistema financeiro, após o “terramoto” da falência do Lehman Brothers .

Em termos futuros, consideramos haver mais algum espaço (cada vez mais limitado) para a continuação de quedas nas taxas Euribor, decorrente da já referida natural estabilização do mercado monetário, bem como da realização das duas outras operações de cedência de liquidez a um ano que o BCE referiu ir ainda realizar, e que deverão afectar, essencialmente, os prazos mais longos da curva do Mercado Monetário.

Em relação aos leilões, o BCE anunciou que haverá mais dois, a um ano. Considera que o BCE vai aplicar algum “spread” nos próximos leilões, ou não o fará como aconteceu com o primeiro?
É provável que não o faça, tal como no primeiro leilão, na medida em que também será essa a forma de ter garantido um maior sucesso das operações.

Há algum risco de haver excesso de liquidez no mercado e esta cedência de dinheiro acabar por ter impactos adversos no sistema financeiro?
Esse risco existe, mas, no curto-prazo, julgamos ser mínimo. A economia encontra-se num baixo nível de utilização dos factores produtivos, patente no facto da Utilização da Capacidade Instalada na Indústria ter caído para mínimos históricos e no aumento da Taxa de Desemprego, situação que tende a reduzir, significativamente, as pressões inflacionistas. Assim, o que será necessário é que, à medida que a economia for recuperando, se proceda a uma “secagem” de toda esta liquidez.

O importante será, ainda, que estas “injecções de liquidez” cheguem, de facto, à economia “real”, porque, caso contrário, não cumprirão o propósito da sua existência. Com estas operações, o BCE pretende que a banca europeia fique dotada de liquidez suficiente para cumprir o importante papel que todos sabemos ter no processo de recuperação da economia da Zona Euro. Refira-se que, actualmente, mais de metade do montante da referida operação de cedência de liquidez a um ano ainda se encontra depositado nas contas que os bancos dispõem no BCE (236 mil milhões de euros).

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