Um telemóvel que se ilumina sem mais nem menos, um bip suspeito no início de uma conversa são apenas alguns sinais de que alguém pode estar a espiá-lo.
São cada vez mais os programas à venda na Internet que permitem fazer escutas telefónicas, sem necessidade de grandes meios ou conhecimentos técnicos. Bastam poucas centenas de euros e 10 minutos a sós com o telemóvel da vítima.
Alguns sites até alegam que o envio de um SMS ao visado é suficiente, desde que este o abra inadvertidamente. A partir daí, acede-se a tudo o que passa pelo aparelho, desde as conversas ao conteúdo dos SMS enviados e recebidos.
Mais: um ouvido atento e mal intencionado poderá escutar não apenas o que a vítima diz, como também o que outros dizem à sua volta, já que os programas permitem accionar o microfone do aparelho sem o conhecimento da pessoa que está a ser monitorizada.
Mais ainda: se o telemóvel estiver equipado com GPS, as aplicações permitem localizar a vítima através do envio das coordenadas do sítio em que se encontra. E tudo sem que o visado tenha a menor percepção do que está a passar-se, uma vez que o programa não é detectável.
Os sites que vendem software espião não se coíbem de indicar os fins a que se destina: descobrir o que andam a fazer os filhos, acabar com as dúvidas sobre eventuais traições do cônjuge ou saber o que planeia o chefe. Além daqueles programas, é também possível adquirir através da Internet, por preços bastante mais elevados, telemóveis com as aplicações já instaladas. No entanto, o espião terá de oferecer o aparelho à vítima e é preciso que esta o utilize.
Incorrer num crimeEmbora as empresas que comercializam estes produtos aleguem que não violam qualquer lei, quem os utiliza está de facto a cometer um crime, pelo menos em Portugal. Manuel Lopes Rocha, especialista em Direito da Informática, garante que a utilização destas aplicações é ilícita, sendo que apenas são legais as que são feitas no âmbito de um processo judicial: "Quem usa esse tipo de programas está a cometer vários crimes, já que interfere em comunicações e viola o direito à privacidade", garante. O advogado, que considera a utilização desse software "inadmissível", acrescenta que "as pessoas estão muitas vezes preocupadas com a questão do 'Big Brother' e de o Estado controlar a vida de cada um, quando isso pode estar a ser feito pelo vizinho do lado".
As operadoras dizem-se atentas, mas descartam qualquer responsabilidade. Ressalvando que "tem vindo a solicitar, aos principais fabricantes de equipamentos móveis, a implementação de medidas que visam incrementar os níveis de segurança dos terminais" que comercializa, a Vodafone garante que esse tipo de software "é alheio às redes GSM", operando num ambiente da "responsabilidade exclusiva dos clientes", ou seja, nos seus telemóveis. Já a Optimus assegura que "mantém equipas próprias e especializadas a acompanhar e a avaliar os níveis de risco deste tipo de aplicações" e diz acreditar "que neste momento existem já mecanismos que parecem minimizar razoavelmente qualquer tipo de actividade que possa causar desconforto ao utilizador". Por seu lado, a TMN refere que nunca "registou quaisquer reclamações resultantes de um sistema desse tipo" e afirma estar "permanentemente atenta à possibilidade de intrusões na rede".
Tendo em conta que muitos destes programas se destinam sobretudo, ou mesmo exclusivamente, a modelos Nokia e ao iPhone, da Apple, o Expresso contactou os fabricantes. A Nokia Portugal parece desconhecer a existência deste tipo de software de espionagem, bem como o facto de poder ser usado nos telemóveis da marca. A empresa afirma só poder pronunciar-se sobre esta questão "após apresentação dos factos", por forma "a analisar o assunto e verificar a veracidade da situação". Da Apple não foi possível obter uma resposta em tempo útil. O Expresso tentou ainda obter a reacção da Polícia Judiciária, que se limitou a dizer que não considera "nem oportuno nem conveniente" pronunciar-se sobre o assunto.

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