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sábado, 4 de julho de 2009

João Salgueiro: Crise portuguesa vai continuar mesmo quando passar a crise internacional

Mesmo quando a retoma se instalar nos países desenvolvidos, Portugal continuará em crise, afirmou hoje o economista João Salgueiro, defendendo que a instabilidade se irá agravar ainda mais no território nacional, fruto de uma crise económica mas também de uma crise crónica de competitividade.

“A página da crise internacional pode ser virada, mas a crise nacional irá permanecer”, garantiu hoje João Salgueiro, um dos oradores convidados do IV Congresso da SEDES, em Lisboa.

O ex-presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB) criticou o poder político, dizendo que se está a concentrar excessivamente na crise internacional, e diz que Portugal tem vindo a sofrer com “a falta de visão e estratégia das classes dirigentes”.

Para João Salgueiro, a actual crise está a chegar ao fim, “no sentido de deixar de haver falta de confiança total”. Contudo, realça o economista, o mercado interbancário ainda não está a funcionar em pleno e o desemprego continua a aumentar, pelo que “a crise económica irá ainda agravar-se”.

Mas mais importante do que esta instabilidade no mercado financeiro e nas economias é a crise de competitividade que tem vindo a afectar a Europa e os Estados Unidos.

Para João Salgueiro, Portugal, à semelhança de outros países europeus e dos próprios Estados Unidos, enfrenta “um défice crónico na balança de pagamentos”, que se arrasta há quase uma década e que resulta de uma crise de competitividade.

“Sectores inteiros de actividade (como o têxtil, os brinquedos, os componentes para automóvel ou a siderurgia) fecharam nos EUA e na Europa e foram transferidos para a Ásia”, explica.

Para o economista, foi o doping do crédito que ajudou a manter a economia a funcionar, ainda que artificialmente. “Normalmente, não se dá crédito barato durante muito tempo para não provocar a inflação, mas neste caso foi possível dar crédito sem os preços aumentarem por causa da China, que permitiu aos EUA financiarem-se e fez pressão sobre os preços com os seus produtos baratos”, revela.

“Em Portugal, o empreendedorismo é uma espécie para caça sem período de reserva”

Para João Salgueiro, a resolução da crise nacional não pode ser feita com estratégias de mais despesa pública e dívida e sim criando condições para que haja mais empresas a produzir valor.

“Precisamos de sectores de crescimento”, defendeu o economista, dando como exemplo uma agricultura exportadora (à semelhança do que acontece em Espanha), uma indústria de aquacultura ou a exportação de serviços de saúde e financeiros.

É na criação deste contexto competitivo para a economia nacional que as forças políticas têm de concentrar-se, defende João Salgueiro. Mas, para isso, é necessário criar condições ao empreendedorismo que, em Portugal, “tem sido uma espécie para caça sem período de reserva”, ironiza.

O economista considera ainda que Portugal está demasiado dependente da União Europeia, não assumindo estratégias próprias e escondendo-se numa posição de “resignação à mediocridade, com a desculpa de ser um país pequeno e periférico”.

João Salgueiro vai mais longe e defende mesmo que Portugal não deve ter como objectivo convergir para as médias europeias. “Temos de olhar para aqueles países que têm os melhores desempenhos na Europa e tentar replicá-lo no menor tempo possível”, salienta.

O economista refere que foi isso que aconteceu em sectores privados como as telecomunicações, da banca e nas auto-estradas, mas não nos sectores a cargo do Estado, como a educação, a justiça e administração pública.

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