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terça-feira, 15 de setembro de 2009

"O reconhecimento do risco envolvido em produtos financeiros complexos é a maior vitória desta crise"

Em declarações ao Negócios, Duarte Leite de Castro defende que a maior vitória da crise no mercado de crédito de alto-risco foi “o reconhecimento do risco envolvido em produtos financeiros complexos”. O analista da IG Markets Ibéria acredita que há ainda “bastante espaço” para subidas nas várias classes de activos.

1- Um ano depois da queda do Lehman Brothers, o que é que mudou?
A queda da Lehman Brothers foi efectivamente um ponto de viragem a partir do qual se procederam a algumas alterações bastante expressivas. Quer a nível das restrições no mercado de crédito quer a nível da intervenção estatal na economia, assistimos a mudanças consideráveis. A crise instaurada a nível global ensinou-nos que a auto-regulação é insuficiente e que o papel do regulador tem de ser bem vincado. Todos os produtos financeiros ditos sem risco (ou com risco quase nulo) e altas rentabilidades são agora olhados com alguma desconfiança, pelo que o papel dos bancos e outros agentes financeiros a nível da gestão do risco e da oferta destes produtos é agora feito com maior cuidado e acompanhado mais perto pelos órgãos de supervisão.

2- Pensa que os investidores retiraram alguma lição deste episódio na sua forma de actuação?Os investidores claramente tiraram uma lição deste episódio. A própria liquidez que ainda se encontra em “cash” ou activos de risco nulo pode ser interpretada como uma prova disso. Alguns agentes olham actualmente para os mercados com muita prudência e o reconhecimento do risco envolvido em produtos financeiros complexos é a maior vitória desta crise.

3- Muitos activos já conseguiram regressar a níveis anteriores à queda do Lehman Brothers. O que falta para podermos dizer que a crise foi ultrapassada nos mercados?
A crise só vai ser completamente ultrapassada quando a economia real voltar a crescer. Embora nos cheguem muitos sinais de recuperação (ou de início de) a verdade é que os mercados se movem em antecipação. Só recentemente algumas das maiores economias mundiais saíram da recessão técnica e os mercados já subiram mais de 50% desde os mínimos de Março. À medida que as economias forem progressivamente mostrando sinais de recuperação a nível do sector imobiliário, o foco passará para o consumo privado e sua evolução. Acreditamos que a evolução do consumo privado será um dos principais catalisadores para os mercados financeiros para 2010.

4-O que podemos esperar daqui para a frente em termos de evolução das bolsas e outros activos?
Acreditamos que ainda há bastante espaço para subidas nas várias classes de activos à medida em que o cenário económico vá melhorando. A nível do segmento accionista, continuamos bastante optimistas a médio prazo e olhamos para o mercado com sentido de oportunidade. Com muita liquidez ainda de lado há muitos investidores que perderam a escalada das acções e querem agora entrar para aproveitar o tempo perdido. O “venda em Maio e saia do mercado (“sell in May and go away”) não funcionou e muitas das más notícias que se esperavam nunca chegaram. Até ao final do ano ainda podem haver valorizações interessantes e o aproveitar as correcções ocasionais para entrar no mercado parece uma boa estratégia.

5- As bolsas já recuperaram muito. Perante isso, quais os sectores que ainda estão atractivos?
Apesar das bolsas já terem recuperado muito estão ainda consideravelmente desvalorizadas face aos valores históricos. Ainda assim, continuamos a preferir os sectores mais cíclicos que dependem mais do crescimento económico, como energia, consumo e construção.

6- Os economistas dividem-se quanto à sustentabilidade da actual retoma económica, se será em V ou W. De que forma é que esta incerteza pode condicionar a escalada das bolsas?
Na nossa opinião a recuperação não será nem em V nem em W mas sim em U. Um recuperação em V pressupõe um retomar muito rápido ao nível de crescimento económico potencial, o que não nos parece que vá acontecer. A economia vai melhorar à medida que o cenário recessivo se afasta, pelo que deverá haver um período de consolidação pelo menos até haver melhorias substanciais no mercado de emprego. O papel dos governos nas estratégias de saída dos planos de ajuda será decisivo para o comportamento dos mercados financeiros. O mercado parece estar a descontar uma recuperação em V quer no crescimento económico quer nos resultados das empresas, pelo que poderá haver lugar a correcções.

7- As novas regras em estudo para reforçar a regulação e supervisão dos mercados financeiros podem retirar dinamismo e competitividade ao funcionamento dos mercados?
O excesso de regulação pode efectivamente retirar algum dinamismo ao mercado. É certo que o papel do regulador é fundamental no mercado mas não pode ser excessivamente penalizador para o investimento e para a tomada de risco. O papel do regulador tem sido amplamente discutido e parece haver um consenso relativamente à importância da sua função, embora seja também importante salientar que o excesso de regulação pode prejudicar o crescimento económico, na medida em que a tomada de risco vai sempre desempenhar um papel fundamental na inovação. Os reguladores deverão saber colocar-se no mercado, sob a égide de uma melhor e mais transparente supervisão que imprima confiança nos mercados e que seja mais contra-cíclica, ou seja, que se posicione na prevenção do problema e não na sua solução imediata. Uma ideia interessante será talvez estreitar as relações entre os vários reguladores.

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