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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Retoma ameaça reforma radical do sistema financeiro

A reforma radical do funcionamento do sistema financeiro, anunciada por todos os governos dos países mais ricos no auge da crise, pode estar agora mais distante e a culpa é dos sinais de retoma dados pela economia mundial durante os últimos meses.

Com os ministros da Finanças dos países do G20 a reunirem-se hoje e amanhã em Londres para prepararem o encontro de chefes de Estado agendado para Pittsburgh no final do mês, o ímpeto reformador revelado pelos líderes mundiais nos anteriores encontros do G20 parece estar bastante mais moderado. Na Europa, a prioridade parece estar concentrada na imposição de limites aos bonus entregues pelas instituições financeiras aos seus gestores, não havendo ainda um acordo em relação às questões mais vastas da regulação do sistema. Nos EUA, a administração Obama, através do secretário do Tesouro, Timothy Geithner, já apresentou um plano concreto de reformas, mas ainda é preciso obter o acordo do Congresso, algo que se adivinha difícil.

E por isso, já há quem avise que as mudanças necessárias para se evitarem a eclosão de novas crises semelhantes podem já estar em causa. Nas últimas semanas, um pouco por todo o mundo, surgiram alertas de vários quadrantes. Esta semana, em declarações à agência Bloomberg, Raghuram Rajan, antigo economista chefe do FMI, disse que “como temos uma retoma, lidar com os verdadeiros problemas vai ser mais difícil”, enquanto Stephen Ceccheti, do Banco Internacional de Pagamentos, revelou estar “muito preocupado que a recuperação apareça e a vontade de efectivamente reparar o sistema desapareça”.

O principal problema referido está na possibilidade de, num cenário em que os bancos voltam a emprestar e as bolsas a subir, comece a faltar a vontade política para tomar medidas que impliquem constrangimentos ao sector financeiro. Durante esta semana, Adair Turner, presidente da entidade que regula o sistema financeiro no Reino Unido, defendeu a imposição de limites significativos à actividade dos bancos e teve como resposta um protesto generalizado dos responsáveis do sector, algo que dificilmente poderia ter acontecido no auge da crise, quando a necessidade de recorrer a uma ajuda estatal era, para todos os bancos, uma possibilidade.

José Reis, professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, concorda com quem considera a reforma do sistema ameaçada e diz que “a hesitação [nas mudanças] é um risco sério”. “Há governos que revelam consciência do essencial – a necessidade de arbitragem política e social da economia – mas mesmo esses sofrem a pressão da ansiedade do curto prazo e da ilusão da retoma”, defende. Este economista diz ainda que “a profunda falta de memória e de saber histórico que os economistas insensíveis ao mundo revelaram vai ser usada para evitar ou adiar reformas, sem dúvida”.

Eduardo Paz Ferreira, professor da Faculdade de Direito de Lisboa, está menos pessimista. Apesar de reconhecer que “há um pouco de verdade” na ideia de que a recuperação pode adiar as mudanças, defende que “não se pode estar à espera de um mal pior para que depois surja depois o bem redentor”. “Acredito que a tendência de reformar o sistema a que se assiste desde o início da crise é para manter”, afirma, destacando em particular a posição que tem vindo a ser assumida pela Administração Obama.

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